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A
minha mãe tinha 95 anos - e eu 58 - quando me aposentei na área de recursos
humanos. Apesar da idade, ela era perfeitamente capaz de cuidar de si.
Eu presumia que ainda tinha alguns anos pela frente até precisar realmente
tomar conta dela. Visitava-a toda noite, pois ela morava no conjunto habitacional
vizinho, enquanto eu vivia a meu bel-prazer; viajava, cultivava hobbies,
visitava os amigos e tratava de aproveitar ao máximo a aposentadoria.
Levei essa
vida despreocupada até o dia em que encontrei mamãe caída no chão, vítima
de uma fratura compressiva na espinha. O único tratamento possível era
o repouso absoluto, disse o médico. Quando meu pai adoeceu, minha mãe
e eu cuidamos dele em casa até que falecesse, por isso concluí que para
ela também seria melhor ficar em casa.
Sem Tempo para
Mim
Demorou
mais de dois meses para que a dor passasse, mas, mesmo depois disso, mamãe
continuou de cama. Ela era magrinha e, como lhe haviam retirado o útero
e parte do estômago devido a uma enfermidade anterior, pesava apenas trinta
quilos. Mesmo assim, não era nada fácil o trabalho de dar-lhe banho e
trocar-lhe a fralda. Ela não se queixava nem resmungava, e eu sabia que
ela estava tentando não me sobrecarregar mais do que o necessário. Eu
fazia o possível para facilitar sua vida, mas confesso que cuidar dela
dava muito trabalho.
Mudar-me para
a casa de minha mãe e tomar conta dela, em período integral, foi uma guinada
de 180 graus na vida despreocupada que eu levava antes que ela se machucasse.
Numa ocasião, anotei todas as minhas tarefas diárias e descobri que eu
trabalhava, incessantemente, sem uma pausa nem de cinco minutos. Em breve,
comecei a me perguntar por que eu era a única a carregar aquele fardo
já que tinha uma irmã que não morava longe do nosso apartamento. Ela havia
perdido o marido muitos anos antes e seus filhos já eram adultos, portanto,
tinha tempo de sobra. Mesmo assim, não nos visitava mais que uma vez por
mês.
Um dia, uma
amiga me propôs uma pequena viagem de um só dia. Férias enfim! Eu trabalhava
sem parar desde que minha mãe adoecera. O descanso faria bem a mim e a
minha mãe, pensei. Mas quando telefonei para minha irmã pedindo ajuda,
ela perguntou: “Viajar? Quando você volta?”
Devo
voltar no dia seguinte, lá pelas três horas.
Tão tarde? Ela falou em tom acusador.
Quando foi
a última vez em que ela nos ajudou? Eu fiquei furiosa. Perdia o sono devido
a ansiedade quando minha mãe não estava bem. A preocupação, o cansaço,
a tensão de carregar o fardo sozinha eram excessivos. Eu me perguntava
quanto tempo aquilo ainda iria durar...
O E-Mail
Um dia,
eu estava passando os olhos pela caixa de entrada do meu correio eletrônico
quando as palavras “Reflexão completa de sua vida para um novo começo”
me chamaram a atenção. Era o anúncio do Plano Sênior 21, um programa da
Happy Science para idosos, no qual os participantes passam por uma “reflexão
sobre a vida” - uma reflexão sobre as relações com a família, os amigos
e os colegas, década por década -, ao mesmo tempo que estudam os ensinamentos
do mestre Ryuho Okawa acerca do coração. Fiquei intrigada e, como a nossa
atendente podia ficar com a minha mãe quando eu ia às aulas, resolvi inscrever-me.
Recordando
a Minha Infância
A primeira
aula começou com uma revelação surpreendente.
“Antes de nascer,
todos nós escolhemos os nossos pais e o ambiente mais adequado ao treinamento
da nossa alma. Mas, quando crescemos, esquecemos o amor que nos foi dado
pelas pessoas ao nosso redor. Devido a isso, tornamo-nos autocentrados
e infelizes.”
Então somos
nós que escolhemos nossos pais? Lembrei-me de um dia - eu ainda estava
no ensino médio - em que gritei com a minha mãe: “Eu não pedi para nascer!”
Ela me olhou com tanta tristeza...
“Procure voltar
para o período entre o seu nascimento e os seis anos de idade e relembre
o quanto seus pais fizeram por você.” Eu fechei os olhos e fui inundada
pelas lembranças da minha infância.
Eu nasci em
plena Segunda Guerra Mundial, um tempo difícil em que havia ataques aéreos,
evacuações e racionamento de comida, mas as únicas lembranças que eu tinha
era de uma infância feliz. Cena após cena, recordei minha família cuidando
para que eu não ficasse com medo. Minha mãe me adorava, principalmente
por eu ser a caçula. Fui muito amada, no entanto, nunca retribuí esse
amor aos meus pais...
Quando nós
avançamos para o período entre os sete e doze anos de idade, a imagem
do meu futon* me veio de súbito à mente. Eu não tinha lembrança de haver
dobrado e guardado o meu futon antes de entrar no ensino médio. Então
me dei conta de que era a minha irmã, que dormia no mesmo quarto, que
o guardava para mim. Relembrei as inúmeras vezes que ela me ajudou e percebi
que eu tinha ficado tão acostumada a isso que não conseguia entender por
que minha irmã não me ajudava agora. “Ela me deu o suficiente”, pensei.
“Tomar conta de mamãe é responsabilidade minha.”
Assim que consegui
enxergar isso, desapareceram todas as frustrações com minha irmã.
Os Sentimentos
da Minha Mãe
Durante
muito tempo, eu me senti sufocada por ela e sonhava um dia ficar livre
daquilo. Mesmo quando saí de casa, ela me telefonava quase toda noite
para se queixar de meu pai a respeito de como ele disse isso ou aquilo.
Quando eu não estava, mamãe entrava no meu apartamento e colocava comida
na geladeira. E depois telefonava criticando-me porque eu deixara um pedaço
grande de carne na geladeira, coisa que não fazia bem à saúde. O que eu
queria era que ela me deixasse em paz.
Entretanto,
ao olhar para o passado pela perspectiva da Verdade, vi um quadro completamente
diferente. Minha mãe, que vivia reclamando do meu pai, temia que ele trabalhasse
demais e acabasse adoecendo. Queria que ele descansasse mais. E me telefonava
toda noite e levava comida à minha casa simplesmente porque se preocupava
com a filha relaxada que eu era. Só queria me ver saudável e feliz. Por
que eu não vi isso? Como pude ser egoísta e ingrata a ponto de nunca me
perguntar o que minha mãe havia sentido em tantos e tantos anos? Fiquei
tão envergonhada e triste com o meu comportamento que chorei até ficar
com a blusa ensopada de lágrimas.
A Alegria de Simplesmente
Saber Retribuir
As sessões
de reflexão possibilitaram-me não só descobrir a renovada gratidão às
pessoas próximas e reparar os meus erros, mas também introduziram a oração
na minha vida. A oração ajudou-me a superar mais depressa a fadiga mental
e física, e orar diante do altar em minha casa enchia-me de calor e luz.
Além disso, cuidar da minha mãe deixou de ser um fardo e transformou-se
numa fonte de grande alegria para mim.
Quando ela
estava dormindo, eu lia, estudava e assistia a programas sobre enfermagem.
Para abrandar a tensão emocional de sempre ter de receber cuidados, pedia-lhe
que me ajudasse a descascar a ervilha ou em outras tarefas simples. Quando
eu lhe agradecia a ajuda, ela sorria e limitava-se a dizer: “O prazer
é todo meu.” Para quebrar a monotonia, eu tirava-a da cama e levava-a
para a sala na hora do chá. Tinha uma infinidade de coisas para serem
feitas, mas, quando estava passando o seu programa predileto, eu interrompia
tudo e assistia à televisão com ela.
As pessoas
tendem a ficar rabugentas na velhice, mas a minha mãe apenas aprofundou
a sua gratidão com a idade. Qua ndo as atendentes vi nham ajudá-la a tomar
banho, ela unia as mãos em oração para exprim ir gratidão, e assim ficava
do começo ao fim. Admiradas, todas diziam: “Não existe ninguém como a
Sra. Maruyama.” As atendentes gostavam muito dela. Quando precisava se
submeter a um tratamento difícil, mamãe cantava suas canções favoritas.
Cantava durante o procedimento doloroso e, quando ter m inava, nunca se
esquecia de agradecer à enfermeira.
Mãe
e Filha
Numa
noite de outono, a lua estava cheia e bonita. Eu queria mostrar a lua
magnífica para mamãe e fiz um grande esforço para aproximar a cama da
janela.
Não passou
um único dia em que mamãe não me tenha amado desde que eu nasci neste
mundo, e quando a morte começou a rondá-la, ela continuou tentando me
amar. Não consegui refrear as lágrimas ao responder: “Você é a melhor
mãe que uma filha pode ter. Obrigada por ser minha mãe.” Fiquei chorando
e acariciando a mão dela até que os primeiros raios da aurora entrassem
pela janela.
Adeus, Mas Por
Pouco Tempo
Foi num
dia de junho de 2006, fazia quatro anos que eu cuidava de minha mãe em
tempo integral:
“O quarto está repleto de flores do chão ao teto. E vejo muitas mulheres...”,
disse ela. E, então, expirou tranqüilamente. Estava com 101 anos.
Eu sabia que
mamãe apenas entrara no outro mundo e que eu iria revê-la um dia, mas
senti tanta falta dela. Pouco tempo antes, havia feito uma pequena almofada
com seu tecido favorito. Ela segurou-a junto ao peito e riu, “Oh, como
estou contente. Vou mostrá-la à minha mãe quando eu voltar para o céu.”
Então eu me
perguntei: “Será que as pessoas têm saudade da mãe mesmo na velhice?”.
Mas agora entendo dolorosamente o que ela devia sentir. Quando eu era
jovem, não queria senão me afastar dela. Agora sei o que é ser uma pessoa
capaz de amar e apoiar a outra, assim como minha mãe me amou.
Descobrindo a
Verdadeira Felicidade
Eu
tinha medo da morte. Mas depois de encontrar a fé na Happy Science, nada
mais me preocupa.
“A dor funciona
como uma pedra de amolar na qual podemos nos aprimorar e o sofrimento
nos dá o desejo de compreender a nossa situação e pode despertar em nós
o amor pelos demais. Temos de reconhecer a existência de um sistema de
aprimoramento da alma que foi cuidadosamente concebido por Deus.”
(O Ponto de Partida da Felicidade)
Agora posso
dizer que a oportunidade de cuidar de minha mãe me foi dada para que eu
aprendesse que a verdadeira felicidade está em dar amor aos demais. Se
eu não tivesse recebido essa tarefa, continuaria levando uma vida autocentrada
e é bem possível que morresse sem saber o que a gente sente quando dá
amor às outras pessoas. Esta experiência não foi um infortúnio repentino,
e sim, um gesto da incomensurável e profunda compaixão de Deus.
Mamãe, tenho
muitas saudades de você, mas viverei os anos que me restam sem remorso,
até revê-la no céu. Meu coração anseia por esse dia.
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