|
Fábrica
vegetariana
“Ele
não a cuspiu!”, exclamou a mãe com entusiasmo, voltando à loja para comprar
mais verduras que o filho agora gosta muito de comer. Para assombro geral,
as verduras crocantes, doces e fragrantes são cultivadas em prateleiras,
à luz de lâmpadas fluorescentes, no interior de uma pequena loja. Essa
mesma tecnologia possibilita aos pesquisadores na Antártida comer verduras
frescas regularmente. É a culminância do sonho de um homem chamado Shigeharu
Shimamura, o criador e presidente da fábrica de vegetais Mirai.
O sonho de vinte
anos
Shimamura
tinha dezessete anos quando leu o livro Nova Revolução Empresarial,¹
de Ryuho Okawa, e ficou instantaneamente inspirado pela visão de Okawa:
“No futuro, os produtos agrícolas serão produzidos no interior dos prédios
[...] Com o uso de diversas tecnologias, será possível cultivar plantas
entre quatro paredes.” Desde menino Shimamura tinha fascínio pela natureza.
“Imaginei plantas verdes cultivadas em ambiente fechado e pensei que isso
revitalizaria a agricultura e talvez até resolvesse a escassez mundial
de alimento. Percebi que era isso que eu queria fazer.” Ele sentiu que
o potencial da produção de vegetais em ambiente fechado era ilimitado.
O
caminho menos percorrido
No entanto,
o caminho da realização desse sonho não foi dos mais fáceis. A pesquisa
da tecnologia da fábrica de plantas estava em progresso desde a década
de 1970 e o conceito em si era tecnologicamente viável. Mas a instabilidade
da produção, a baixa qualidade e o elevado custo operacional dificultavam
a comercialização. Eram raros os centros de pesquisa especializados nessa
forma de produção agrícola e não havia muita literatura a respeito. Nem
mesmo na Universidade de Chiba, famosa pela pesquisa de hidroponia²,
Shimamura recebeu orientação para realizar o seu sonho. Tendo se pós-graduado,
começou a trabalhar numa empresa que estava desenvolvendo a tecnologia
de fábrica de plantas, mas a função que o aguardava não era em pesquisa,
e sim em vendas. Informado de que precisava produzir resultados se quisesse
trabalhar no laboratório, ele se dedicou ao máximo. Teve um desempenho
de alto nível, mas foi obrigado a continuar no setor de vendas. “Eu reli
os livros do mestre Okawa e disse cá comigo que, se realizar uma fábrica
de plantas fosse verdadeiramente o que me cabia fazer, a oportunidade
não deixaria de surgir. Estava disposto a construir e a pôr em funcionamento
um centro de pesquisa próprio se fosse necessário.” Não demorou muito
para que o transferissem para o departamento de pesquisa.
Uma batalha solitária
A sua
alegria de enfim poder empreender a pesquisa durou pouco. A empresa estava
interessada no controle de pragas e considerava o cultivo de plantas um
campo secundário. Enquanto as outras equipes de pesquisa recebiam financiamento
de dezenas de milhares de ienes, ele tinha de se contentar com apenas
algumas centenas. E, como o laboratório pesquisava principalmente insetos,
mais de uma vez as suas plantas foram devoradas. Devido à confidencialidade,
ele não podia consultar ninguém, e contar unicamente com o seu próprio
esforço e determinação foi uma batalha solitária.
Procurar
o caminho que dá certo
Depois
do trabalho e nos fins de semana, Shimamura ia à biblioteca da sua antiga
faculdade e lia tudo quanto encontrava a respeito de fisiologia vegetal.
Procurou a melhor combinação de volume de água e temperatura, fertilizante
e luz para criar o ambiente ideal para o cultivo das plantas. Estudou
arquitetura e iluminação a fim de projetar a estrutura da sua fábrica.
Continuou estudando, investigando, até que o número de livros lidos excedesse
um milhar. “O meu método de pesquisa é a reflexão construtiva. Quando
uma coisa não dá certo, procuro encontrar um modo de fazer com que dê
certo.” No espaço de um ano, ele conseguiu conceber um sistema com a mesma
capacidade produtiva das grandes fábricas de plantas. Em mais dois anos,
projetou uma fábrica capaz de produzir três ou quatro vezes aquela quantidade.
Retorno à
origem
Em 2004,
Shimamura tornou-se autônomo e fundou a Mirai Co., o primeiro passo do
seu sonho. Começou atuando como consultor de outras fábricas de plantas,
mas, no terceiro ano, havia acumulado crédito suficiente para construir
a sua própria fábrica e uma loja. A chave do seu sucesso empresarial foi
a frase: “Necessidades, não sementes.”
“Eu li em outros
livros do mestre Okawa³ que, nos negócios, o que importa é
a necessidade do cliente, não o contrário. Dediqueime à pesquisa a fim
de realizar o ideal de Deus. Mas que ideal é esse? Voltei para o ponto
de partida e percebi que é propagar a felicidade oferecendo aquilo que
as pessoas necessitam: no caso, comida sadia e saborosa. Essa era a razão
por trás da minha pesquisa.”
Uma perspectiva
diferente
A
filosofia empresarial de Shimamura reflete-se no seu modo de encarar as
plantas. “Até então, a tecnologia convencional das fábricas de plantas
procurava criar um sistema eficiente de cultivar um grande volume de plantas.
Mas essa abordagem era caríssima e não tinha flexibilidade para lidar
com as necessidades variadas das plantas. A minha abordagem consiste em
pensar pela perspectiva da planta, acrescentando e alterando os nutrientes
conforme ela reage. Eu retornei para aquilo que a agricultura é basicamente:
o cultivo de plantas. E as plantas são seres vivos. Passei muitas noites
no laboratório, observando-as.”
Essa
abordagem levou-o a descobrir que, estando no ambiente ideal, o agrião,
por exemplo, fica mais doce e o manjericão perde o sabor forte e ácido
sem perder a fragrância. A demanda dos seus clientes vai desde trezentas
alfaces por dia num mês, mas só cinquenta no mês seguinte, até o manjericão
japonês, que tem duas vezes mais vitamina C, e folhas de alface que não
enrugam, mas tudo é possível para Shimamura. Ele cultiva mais de vinte
variedades de verduras orgânicas, sem agrotóxicos e sem terra, e recebe
encomendas de cadeias de restaurantes de todo o país. Em maio de 2009,
o ex-primeiro-ministro Aso visitou a loja de Shimamura, a “Green Flavor”,
para provar a alface e as ervas.
Continuar sonhando
Numa
entrevista recente, perguntaram a Shimamura por que, apesar dos obstáculos
e dificuldades, ele continuou perseguindo obstinadamente o seu sonho.
“Houve
momentos em que eu podia ter optado por outra coisa. Há tanto que fazer;
tanta coisa que eu queria fazer neste mundo. Mas, acima de tudo, eu tinha
fé, e a fé muda o nosso modo de tomar decisões. A sua vida já não é só
sua. E, quando eu me perguntava qual caminho eu mais me arrependeria de
não ter tomado, a resposta era sempre a fábrica de plantas.”
Shimamura realizou
o seu sonho?
Ele responde:
“Nem dez por cento dele. Eu quero expandir para a estufa e a agricultura
ao ar livre e cooperar com outros produtores nesses campos. O meu trabalho
não terminará enquanto houver fome no mundo. Não sei se vou continuar
fazendo isso na próxima reencarnação, mas quero continuar sonhando.”
|